• Lelo Brito

TREM DE LER: UM COPO DE CÓLERA

Atualizado: 13 de jul.


O nosso Clube de Leitura Trem de Ler, neste mês de julho, está lendo “Um copo de cólera” (1978), de Raduan Nassar. Trata-se de uma das grandes novelas da literatura brasileira, escrita em saborosa prosa poética. O enredo, que conta um desentendimento virulento de um casal formado por uma mulher jovem e um homem maduro, foi vertido para o cinema em 1999, com direção de Aluízio Abranches.


O bate-papo mensal do Clube de Leitura Trem de Ler, para o qual você é nosso convidado, é mediado pelo psicanalista João Carlos Domingues Jr. e é gratuito e aberto ao público. O próximo encontro será na sexta-feira, 29 de julho, às 18h, na Livraria Estação Mercado do Livro, em Lambari-MG - Pça. Vivaldi Leite, 98, Centro.

Se você gostaria de participar online da conversa, envie e-mail para lelodebrito@gmail.com .


Raduan Nassar é um dos maiores autores em Língua Portuguesa do século 20. Vencedor do Prêmio Oceanos de 2020, publicou apenas três livros curtos, mas que se firmaram depressa entre as grandes obras da literatura do mundo lusófono. São eles as novelas Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978) e a coletânea de contos Menina a Caminho (1993).

Fotografia: Instituto Moreira Salles


Abaixo, leia um breve artigo de Lelo de Brito, diretor do Vagão 98 e mestre em Letras, a respeito da obra em discussão em nosso Trem de Ler. Vem se divertir conosco e saborear o melhor da literatura brasileira!


UM COPO DE CÓLERA


Comentar uma frase ou um livro de Raduan Nassar, ou falar sobre toda sua literatura, é o mesmo; é estar acerca de uma escrita precisa e musical, lenta e exuberante, enxutíssima. Porém, de uma concisão nada austera, antes rica, forjada com um uso altíssimo e impecável da prosa poética. As histórias são contadas por frases rascantes, carnais e filosóficas, angustiantes e belas, ditas por personagens para quem as palavras sustentam, em equilíbrio precário, não só as ideias mas também os instintos. O efeito desse arranjo das coisas narradas para o leitor é o de nos lembrar - a nós, distraídos que somos - que a palavra e a razão servem ao bem e ao mal igualmente; são damas que se vendem, não a quem paga mais, mas a quem aposta mais alto.


“Um copo de cólera”, novela escrita em 1970 e publicada em 1978, narra a intimidade de um casal formado por uma jovem jornalista e um homem maduro, chacareiro. Logo no primeiro capítulo, "A Chegada", o estilo da narrativa e o conflito que move o enredo instalam-se. Nas palavras do chacareiro-narrador: “...e assim que entramos [...] abri as cortinas de centro e nos sentamos nas cadeiras de vime, ficando com os nossos olhos voltados para o alto do lado oposto, lá onde o sol ia se pondo, e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou, ‘o que que você tem’, mas eu, muito disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhidão lá do poente, e foi só mesmo pela insistência da pergunta que respondi, ‘você já jantou?’”


No trecho acima, assim como nas duas novelas de Raduan Nassar, a linguagem é escorreita e sinuosa, prescinde de pontos finais e de outros ademanes gráficos: recurso literário que aproxima o leitor da história. Desde o primeiro diálogo, o casal estabelece uma relação de disputa psicológica, que vai se tornando cada vez mais visceral, até ebulir em “Esporro”, o capítulo maior e ápice da novela. Em torno do virulento bate-boca do casal, neste capítulo a narrativa propõe, pela voz do narrador, um interessante jogo poético, através do qual se encena uma fuga psicológica; para fora da cultura e da ilustração, em busca da palavra primordial da infância.


Assim, o chacreiro-narrador pensa e diz à companheira: “...eu só sei que continuei montando meus cálculos, mas, soberano, concordo que ela ainda puxava a orelha dos meus números pelos dedos, pois, apesar de ter esgotado o prazo que eu mesmo me concedera pro bate-boca, me vi emendando às pressas - ponta com ponta - o fio cortado por ela um pouco atrás ‘disse e repito: seria preciso resgatar a minha história p’reu abrir mão dessa orfandade, sei que é impossível, mas seria esta a condição primordial; já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, a coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me liberta, é ela hoje que me empurra, agora são outras as minhas preocupações, é hoje outro meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio - definitivamente fora do foco - cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você, que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes...”

O chacareiro, ao atacar sua companheira, ampara-se no embate para perseguir as pulsões primordiais; e ela serve a este propósito com insolente disciplina. Ambos vivenciam, nessa relação turbulenta, uma intimidade arquetípica, que, por trás da cólera, encena a perseguição às pulsões humanas. Ao longo da trama, a mulher se associa e é associada o tempo inteiro à razão e ao juízo, ao pensamento e à cabeça, às ciências e às distrações; ele, por sua vez, se define pelos pés, pela relação com o chão e com a terra, com a cerca-viva, a lavoura - o cultivo - e com a busca pela palavra da infância, instintiva, saturada de significados, jamais ilustrativa. Do embate do casal, fica para o leitor a sensação de que há sempre diversos modos de dizer que são igualmente válidos, conforme os valores.


“É na fresta dos valores que o diabo deita e rola”, cunhou Raduan Nassar em seu livro mais cultuado, Lavoura Arcaica, cuja publicação, em 1975, assombrou o mundo literário lusófono, dadas a profundidade e a beleza. Depois de Um Copo de Cólera (1978), o autor só voltaria a publicar em 1993, com Menina a Caminho, que reúne contos também escritos nos idos dos anos 60, de semelhantes rigor e lirismo, viço e humanidade.


Em Raduan Nassar a palavra está embebida em babas e jorros, é epiléptica e purulenta, não pode ser espetacular e certeira, segura e inteira. A palavra diz, pois que dizer é sua sina, depois cala. Assim como o autor, que compôs seus três livros e retirou-se da sociedade para viver outra vida, como agricultor, em silêncio. Avesso a entrevistas e comentários sobre a própria obra, Raduan Nassar certa vez respondeu a um jornalista insistente com o seguinte bilhete, escrito à mão: “Cá entre nós, falando baixinho, prefiro o silêncio.”




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