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A fuga das coisas e outros poemas

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Fotografia: Fernando Lemos

Um libelo de Roberto Iemini de Carvalho

 

Por Lelo de Brito

No seu aniversário de 51 anos, o poeta Roberto Iemini de Carvalho se despediu dos convidados com uma frase lapidar: “Fui adolescente até os 50 anos”, disse, um instante antes de entrar no carro e sumir na noite, deixando no bar três ou quatro amigos fiéis. Tomando a frase por um chiste sobre os excessos que marcaram a vida do poeta, seus amigos riram o riso compulsivo dos ébrios. Galhofaria que durou até alguém concluir, “Beto acaba de admitir que não pode mais ser o nosso Sócrates”. Entre os amigos, Beto Iemini era o Sócrates da cena final de O Banquete, de Platão, em que todos adormecem ou voltam para casa, exceto Sócrates, Agáton e Aristófanes, os únicos capazes de beber mais que toda Atenas. De fato, um ano antes, o poeta começara a abdicar da boemia para cuidar da enfermidade que lhe custaria a vida 11 anos mais tarde, em janeiro deste 2021. 

 

Além da persona, também a poética de Roberto Iemini de Carvalho foi, até seus 50 anos, pubescente. Por décadas, ele cultivou a verve dos poetas-adolescentes, como William Blake, Alfred Jarry, Mario Santiago Papasquiaro e Antonin Artaud, entre os quais Arthur Rimbaud e Lautréamont são solares - de quem Iemini foi um leitor empedernido.Trata-se de uma poesia herege, em que a pureza e a violência se mesclam em uma linguagem portentosa e inconsciente, “que não sabe a si” - verso de Iemini. “Só os poetas-adolescentes seriam capazes de corromper os santos”, ele costumava dizer, pois “a poesia, assim como a fé, se dá entre o significado e a verdade.” 

 

A fuga das Coisas e Outros Poemas, quarto e último livro de Iemini, publicado em novembro de 2020, é um libelo cravado entre o significado e a verdade. A obra, editada pelo próprio autor, apresenta 24 poemas escritos ao longo de 30 anos. São versos com intensa luz autobiográfica, que comemoram a vida e a poesia, meigas e turbulentas, de um autor de voz rara e achados prosaicos e cruéis como: 

 

eu te amo, né?

 

Para o escritor José Luiz Amzalak, amigo de adolescência de Iemini, A Fuga das Coisas encena a diáspora do poeta e de sua poesia. Após décadas afastado do amigo, com quem dividiu as primeiras paixões literárias e os sonhos feéricos dos anos de 1960 e 70, Amzalak espantou-se com o livro: “Ainda que seja mero neologismo e talvez não me caiba essa licença poética, a palavra seria 'espantamento', porque é mais que espanto e mais que estranho. Há um outro poeta dentro do poeta Roberto Iemini que conheci na juventude. Há um poeta modernamente lírico, humanizado, renovado pela experiência da vida e pela espera dolorosa da morte, em quem se amalgamaram sutilezas e até doçuras de que seus versos não dispunham na década de 70”, avalia o escritor, hoje radicado em Bragança Paulista-SP.

 

Curiosa diáspora, a trajetória de Iemini, para além da “adolescência”, se compôs com os mesmos antigos poemas inscritos “nos labirintos dos sonhos / quase todos perdidos / na turbulência antiga / da minha juventude”. Como um bricoleur, no sentido derridiano, o poeta extraiu de seus próprios versos o magma de uma poesia renovada. 

 

Amzalak ressalta que o Iemini de A Fuga das Coisas demonstra “o pleno domínio da palavra, a arte da comunicação direta, o sabor de conversa simples e o desprezo a um sem número de modernidades que no passado ele sempre buscou. Não morreu o poeta underground, o poeta marginal das esquinas e das pequenas luzes da madrugada; ele renasceu e permanece vivo e lúcido na nova lírica, amorosa, que descobre no líquido dos olhos da amada algo sem nome.”

 

Na edição de bricolagem de A Fuga das Coisas, Iemini abandonou os títulos dados originalmente aos poemas, os grafismos, como as letras maiúsculas, e um ou outro ademane, tornando a forma dos versos leve à folha branca. As estrofes do poema que intitula a obra foram espraiadas em fila indiana, através das páginas, em direção à última, ao fim. Publicada a obra, que Iemini chegou a temer não ter tempo de ver impressa, o poeta se rendeu à morte - tão presente em sua poesia. E levou consigo o apelido autoirônico da juventude, dado pelo pai, sonetista, com que muito se divertiu em vida: Rimbaud Fracassado.

As últimas unidades de A Fuga das Coisas e Outros Poemas”podem ser adquiridas na Livraria Estação Mercado do Livro.