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  • Lelo Brito


Chegou ao fim a rodada de microprojetos de Auxílio Emergencial 2021 aos artistas sul mineiros. Com a iniciativa, realizada com recursos da Lei Aldir Blanc executados pela Secretaria de Cultura e Turismo do Estado de Minas Gerais, a Fundação Cultural Vagão 98 beneficiou 40 artistas e artesãos do Circuito das Águas e entorno.


Foram 3 editais, que remuneraram artistas e agentes culturais em oito categorias: artes plásticas, artesanato, cultura popular, teatro, música, audiovisual, fotografia e artistas e entidades culturais dedicadas ao público infantojuvenil. Ao todo, foram pagos R$33.000,00 em prêmios. “Os microprojetos foram importantes para aliviar, em nossa região, os efeitos cruéis da pandemia do novo coronavírus para o setor cultural”, avalia Paulo Guerra, presidente do Conselho Executivo da Fundação Cultural Vagão 98. “Ao concluirmos a prestação de contas, ficamos com a boa sensação de termos colaborado em um momento difícil para todo o setor.”


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Clipe dos Microprojetos Edição: Eduardo Biaso




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  • Lelo Brito

Atualizado: 31 de Ago de 2021


Povos Indígenas em Brasília contra a tese do marco temporal.

Fotografia: @cicerone.bezerra


Fato histórico, desde a semana passada mais de 6.000 indígenas, de 176 etnias, presentes em todos os estados brasileiros, instalaram um mega-acampamento, próximo à Praça dos Três Poderes, em Brasília-DF. Eles protestam contra a possível aprovação, pelo Superior Tribunal Federal (STF), da chamada tese do marco temporal. O julgamento, que será retomado na próxima quarta-feira (01/9), decidirá se os indígenas brasileiros têm ou não direitos sobre territórios que não eram ocupados por eles quando da promulgação da Constituição Federal, no dia 05 de outubro de 1988. A decisão do STF será de repercussão geral, ou seja, valerá para todos os processos sobre demarcação de terras indígenas. Hoje, 82 deles aguardam a decisão. Há intensa pressão do agronegócio e do governo Bolsonaro para que o marco temporal seja reconhecido, em desfavor dos povos originários. Existe ainda a possibilidade de o STF postergar a decisão, dando tempo a que o tema avance no Congresso Nacional e os parlamentares decidam a questão por lei que regulamente o tema.


De acordo com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), as áreas indígenas hoje ocupam 12.5% do território nacional. E, segundo a MapsBiomas, apenas 1.6% deste território foi desmatado nos últimos 30 anos. De acordo com o Censo Nacional de 2010, o Brasil tem uma população indígena de 817.963 pessoas, das quais 517 mil vivem em territórios demarcados. Entre os povos que seguem lutando pela demarcação do território próprio estão os Puri, considerados guardiões da Serra Mantiqueira.


Conheça um pouco dos Puri nesta reportagem exclusiva da 1ª edição de Tabuleiro, a revista cultural do Vagão 98.

OS PURI

Por Lilian Silva

O povo Puri, hábeis pescadores, viviam no litoral do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Com a chegada dos colonizadores, em 1500, eles se viram forçados a recuarem serras acima, fugindo do genocídio e da escravidão, a que eles se opunham ferozmente. Perseguidos como todos os povos originários insubmissos, os Puri só conseguiram sobreviver ao assalto colonialista graças à sua imersão e rápida adaptação em matas e serras de difícil acesso. Na diáspora, eles se espalharam em grupos, desde o Rio Paraíba fluminense e paulista, penetrando na parte oriental de Minas Gerais, na região da Serra da Mantiqueira, até o Espírito Santo.


Nos grupos Puri, o chefe era eleito pela astúcia, braveza e habilidades de guerreiro, mas não exercia poderes sobre o povo. Polígamos e nômades, eles viviam da caça, da pesca e da fartura das florestas, o que lhes dispensava da agricultura e da navegação.

Até ao final do século XIX, os Puri mantiveram boa parte de seus costumes. A partir daí, a história oficial deu por extinta a cultura e a etnia, como parte das conhecidas estratégias coloniais de apagamento da memória dos povos originários. Nas últimas décadas, porém, remanescentes e descendentes dos Puri e pesquisadores têm feito esforços coordenados para, através da recuperação do idioma, dos costumes e de outros saberes desse povo, lutar pelo direito deles a ter seu território reconhecido e seus direitos assegurados. Disto depende, entre outras coisas, o nosso conhecimento das florestas e a preservação e recuperação ambiental da Serra da Mantiqueira.


Dois trechos do livro Boacé Uchô, a história está na terra (2020), da escritora e editora puri Aline Rochedo Pachamama

Nós somos plurais porque estamos ligados à imensa teia da vida na Mantiqueira. Também por esse motivo, tudo que é relacionado a ela nos interessa, pois dela fazemos parte. Cada inseto que transmuta e se refaz em nova cor; a folha, que cai da árvore e agora é raiz; a flor, que cumpriu seu percurso e amanheceu fruto; a formiga, que ultrapassa as expectativas da física e carrega algo cem vezes mais pesado que ela mesma; o tutù (tatu), que abre caminhos; o màru (gavião terra), com seu voo decidido e preciso; a shahmûm (cobra) e o sagrado feminino; chindêda (beija-flor), que encanta com seu voo mágico, o qual nos estimula a encontrar a doçura e a alegria de cada situação; as águas da Mantiqueira, de que tanto precisamos; todos fazem parte dessa teia. A vida é para o Encontro. E estamos interligados por meio de sementes, raízes, folhas, flores e frutos. Companhia tanto para a alimentação quanto para o uso medicinal e espiritualidade.

***

Para Teresinha Puri, viver na Mantiqueira faz com que se sinta parte da própria Mantiqueira. “Eu moro no meio da natureza, num cantinho ainda preservado de mata. Eu contemplo a chegada da Lua. Converso com a natureza. Isso tá muito relacionado ao nosso sangue Puri. Eu amo cada planta, cada pássaro, tudo que está relacionado à natureza e defendo mesmo. Minha avó fazia bonequinhas de pano. Tudo à mão. E parte de comida, pamonha... Milho cozido... Tudo que vem do milho e do pinhão. E meu contato com as ervas...quando vou preparar um chá, alguma coisa, é a natureza falando comigo.”

Teresinha Puri, Maringá-MG, Serra Mantiqueira, agosto de 2019


Clique na capa para baixar gratuitamente seu exemplar de Tabuleiro. E curta, entre outras matérias inéditas, o artigo do historiador Gustavo Uchôas sobre o seu livro “Histórias e culturas indígenas na Mantiqueira e vale do rio Verde”, de 2019, que apresenta um panorama dos estudos sul mineiros sobre os Puri.




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  • Lelo Brito

cinema, teatro, feminismo e vida


Por Keilla Petrin e Lelo de Brito, editores da Tabuleiro


“A vida imita muito mais a arte do que a arte imita a vida”, afirmou o poeta Oscar Wilde a respeito da curiosa relação entre o nosso cotidiano e os nossos grandes sonhos dirigidos. E é sobre a fenda, provavelmente falsa, entre a realidade e a ficção que se crava o belíssimo filme A fonte das mulheres (2011), do diretor e roteirista franco-romeno Radu Mihaileanu.

O enredo de La source des femmes - nome original - nos leva a uma pequena aldeia árabe no Norte da África, “ou onde quer que uma fonte corra e o amor seque”, como propõe a citação que introduz a história. A vila, assentada ao pé de uma montanha pedregosa, abandonada pelo governo e organizada em torno de rígidas tradições muçulmanas, parece esquecida no tempo. Ali, na distribuição dos afazeres do dia a dia, a maioria deles manuais, cabe às mulheres fazerem quase tudo, até mesmo subir a íngreme montanha para buscar água na fonte, dado que o vilarejo não conta com saneamento básico ou eletricidade suficiente. Enquanto isso, os homens, desobrigados da segurança da aldeia e da guerra que os ocuparam em outras épocas, desempregados ao mesmo tempo do feudalismo e do capitalismo, bebem chá e conversam, adiando a vida.

Logo nos primeiros minutos da trama, vemos a jovem Karima, interpretada por Farida Bouazzaoui, a carregar sobre os ombros, montanha abaixo, uma canga com dois baldes robustos cheios d’água. Sob a tensão do peso da carga e com a gravidez avançada, ela caminha e arfa. A trilha entre a fonte e a aldeia é tão íngreme quanto precária. Há galhos secos e pedras soltas no chão. Nelas, Karima de repente escorrega e cai. O tombo lhe provoca um aborto espontâneo.

Os abortos resultados de acidentes na montanha são tão antigos quanto a tradição que rege a vida na aldeia, mas são mascarados sob o pretexto de que as mulheres que perdem filhos são estéreis. O caso de Karima, porém, suscita um debate na casa de banho feminina do vilarejo: não seria justo os homens buscarem água ou se mobilizarem para fazê-la chegar aos lares? A resposta é até óbvia, mas como convencê-los?

É então que entra em cena Leila (Leila Bekhti), a estrangeira que veio do sul ao casar-se com Sami (Saleh Bakri), o professor da aldeia. Ela incita as outras esposas a fazerem uma “greve de amor”, pois “esse é o nosso único poder sobre os homens”, como diz a personagem.

O tema da greve de sexo feminina como meio de coerção aos homens remonta pelo menos ao ano 411 a.C., quando o dramaturgo grego Aristófanes escreveu a comédia Lisístrata. A peça conta que, para obrigar os homens a fazerem um acordo de paz que cessasse a Guerra do Peloponeso, as mulheres de várias cidades da Grécia, lideradas por Lisístrada, decidiram se negar aos maridos.

Em 2001, 25 séculos mais tarde, a sabedoria grega voltaria a decidir o futuro, agora o da sociedade. Em Siirt, capital de um distrito homônimo na região da Anatólia, na Turquia, a falta de água potável também levou as mulheres a fazerem uma greve de sexo contra a obrigação de buscar água nos poços para abastecer as casas. O curioso caso foi registrado pela imprensa internacional. Um mês após o início do protesto, os homens procuraram o governo local para pedir os materiais necessários à construção dos dutos. "Os homens vieram até nós e disseram, por favor ajudem, entendam nossa situação", contou Mehmet Carpraz, governador do distrito à época.


Peça teatral grega e rebelião feminista turca foram adaptadas por Radu Mihaileanu em A fonte das mulheres. No filme, a decisão pelo protesto não é pacífica. As mulheres sabem que ofender a tradição representa para elas graves riscos e que falta até mesmo uma instância social ou um foro íntimo para que o pleito seja apresentado. A impossibilidade de falar aos maridos é um dos motivos que, na narrativa, ligam o político ao poético. A dificuldade é contornada com rituais de ciranda: as mulheres dançam e cantam suas demandas em cenas que expõem ao mesmo tempo a beleza exuberante da cultura moçárabe e o lugar subalterno reservado nela às mulheres.

O drama das pressões e agressões que as mulheres sofrem para desistir de alterar o equilíbrio da tradição é habilmente temperado pela ironia com que se aponta e desmascara os privilégios masculinos. No concurso dos conflitos entre os personagens, o filme trata com sutileza de temas espinhosos, como a violência contra a mulher, a maternidade impositiva, o silenciamento feminino e a manipulação do discurso religioso em favor de privilégios machistas. Na poética do diretor franco-romeno, nada distrai ou agride o olhar do espectador, a exemplo de outros filmes do mesmo diretor, como o Trem da Vida (1998) e O concerto (2009).

Na clave da delicadeza, As mil e uma noites, clássico maior da literatura árabe, surge a certa altura em A fonte das mulheres para nos lembrar que, há tempos, com as mais belas narrativas, o prazer, a sensualidade e o desejo mútuo entre homens e mulheres é cultuado como alternativa à sujeição feminina. Um erotismo habilmente mostrado nos momentos finais do filme quando, paralelo à água que jorra da fonte, temos uma cena de amor e gozo entre Leila e Sami. Ricas são as fontes dos nossos primeiros amores.


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